segunda-feira, janeiro 31, 2005

No reino da mediocridade

Lamento entrar em terrenos que não são meus, mas para desancar a TVI estamos cá todos. Possivelmente não vou escrever nada de novo, mas nunca é demais.

Concordo com as sábias palavras do post anterior e acrescento ainda mais alguma coisinha. Em conversa com dois amigos meus (não universitários), descobri que alguns jovens da nossa idade partilham comigo o bom hábito de criticar a sociedade portuguesa.

Nos nossos dias é reconhecível e inegável o valor que os media têm na construção da sociedade. O que é critico é a forma como o fazem. Não são só as novelas nem o telejornal da TVI; é tudo o resto. Não há um programa da t.v. portuguesa que se possa afirmar como educativo e ser reconhecido como tal; não há programas que estimulem o intelecto e desafiem os mais novos a puxar pela cabeça; não há programas alternativos, e quando os há, são transmitidos a tarde e a más horas.

Em termos de jornais, o mais lido é o Correio da Manhã e o 24 Horas deve andar muito perto do topo. Se virmos o canal com mais 'share' em prime-time vemos que é a TVI. Esta promoção da mediocridade não contribui em nada para o nosso crescimento. Não há ninguém com 'balls' para fazer algo diferente, algo verdadeiramente diferente. Pelo contrário: reduzem-se à insignificância de programas como 'A Quinta das Celebridades', e prendem-se à lógica do lucro.

De literatura nem se fala! O português não lê (para quê?, as televisões produzem séries tão boas a partir de grandes obras, aquelas que não dão jeito nenhum ler, mas convém saber alguma coisita para parecer inteligente), e quando o faz lê livros da Margarida Rebelo Pinto, Paulo Coelho, Inês Pedrosa, etc, etc, etc., literatura pejada de sentimentalismo barato, lágrimas fáceis, asneirada a rodos e pontapés na gramática.

A situação actual já é assustadora, mas o futuro adivinha-se muito mais. Estes dois meus queridos amigos não são universitários e por isso estão um pouco afastados daquilo que, pelo menos na nossa escola, João, nos tentam transmitir. Mesmo assim continuam a ser críticos; ainda bem. O problema é que eles são a minoria silenciosa. Cada vez mais jovens de 18, 19, 20 anos contribuem para a construção de uma sociedade mediocre ao comprar jornais como o '24 Horas' (neste cenário o 'Correio da Manhã nem se perspectiva tão mau), ao aplaudir programas estúpidos e a não perder reportagens tão espectaculares como a transmitida este fim de semana pela TVI sobre o Tony Carreira (com honras de retransmissão no Domingo).

A geração seguinte (13, 14 anos) ainda vai ser pior. Acreditem, tenho um exemplar em casa. Ouvem, vêem e (não) lêem as mesmas coisas, não têm respeito por ninguém e acham que são os donos do mundo. Sei que em todas as gerações houve 'ovelhas ranhosas'; o problema da próxima é descobrir alguém que não o seja.

Isto assusta-me muito. É um problema de bases, de mentalidade, da ideia que o português tem de 'Não os consegues vencer, junta-te a eles'. As mentalidades não se mudam de um dia para o outro, mas pelo andamento da carruagem vão mudar...para pior.

Mais uma vez, desculpa a infiltração.

Carlos Barrocas