quinta-feira, setembro 29, 2005

Factor medo

É normal que num jogo de futebol, especialmente entre equipas cuja qualidade difere largamente, o treinador da equipa mais fraca, quando deparado com uma situação favorável (uma vitória ou um empate), tente, através de substituições, aguentar o resultado.

Nos últimos 4 dias assistimos a dois fenómenos derivados desta da teoria, embora um deles tenha sido efectuado de forma contrária. O primeiro deu-se em Alvalade, Domingo à noite, no Sporting-Vit.Setúbal. A jogar contra dez, a ganhar o jogo e a dez minutos do fim, Peseiro saca um coelho da cartola e substitui Liedson (avançado) por Beto (defesa); a reacção não se fez esperar e era de esperar: os adeptos assobiaram, chamaram nomes ao senhor, à senhora sua mãe e à sua excelentíssima esposa; tudo porque não aceitaram que o treinador da equipa mais forte, a jogar em casa e a ganhar tirasse um avançado e colocasse um defesa.

O segundo fenómeno verificou-se ontem, em Manchester, no 'Teatro dos Sonhos', no Man Utd- Benfica. Com o jogo empatado, a meia-hora do final, Koeman não percebeu que a reacção natural dos seus jogadores era a de recuar no terreno, dando a bola aos ingleses, permitindo que eles dominassem o jogo. Para ajudar, tirou um avançado rápido por um médio, entregando o meio campo a um jogador que até aí tinha provado que é bom para jogar nos campeonatos do INATEL (Beto). Quando sofreu o segundo golo, arrependeu-se e fez as substituições que devia ter feito depois da sua equipa ter empatado, fazendo entrar um avançado e um médio ofensivo.

Resultados: o treinador da equipa grande que defendeu o resultado em casa contra um adversário reduzido a dez, ganhou a partida, isolou-se no segundo lugar, a um ponto do primeiro, fazendo o dobro dos pontos que tinha feito no ano passado por esta altura. Saiu apupado, sob lenços brancos, tudo porque o medo que teve a 10 minutos do final era justificável e fez com que operasse as alterações necessárias para que a sua equipa conseguisse o mais importante: ganhar; o treinador da equipa grande que na Terça era um bocadinho mais pequena, perdeu uma oportunidade única de ganhar ao maior clube do mundo porque o medo que teve não lhe permitiu ver que podia ter chegado mais longe. Todavia, saiu por cima, com o apoio dos adeptos, conseguindo uma importante vitória moral.

Depois de um campeonato atípico, parece que ainda há algo que os adeptos portugueses não entendem: as tais vitórias morais não alimentam ninguém. O SCP do ano passado jogava que se fartava, massacrava as equipas em Alvalade, era um encanto para os olhos. No fim ganhou...nada, a não ser o título de melhor equipa portuguesa. Este ano não joga bem, mas ganha jogos.

O SLB do ano passado percebeu que a estética conta pouco, e, com Trapattoni no comando, jogava mal que se fartava, mas ganhava os jogos e acabou campeão. Este ano a aposta parece ser a contrária: jogar bem e ganhar...logo se vê. Em Manchester deram-se por felizes por terem feito uma boa exibição e terem ficado a seis minutos do sonho. Com o italiano tinham, pelo menos, empatado; com Mourinho, percussor do 'podemos não ser bonitos, mas somos os melhores', tinham ganho à vontade. O medo de uns é a virtude de outros.

Carlos Barrocas