sexta-feira, maio 19, 2006

Deste lado do espelho

A Magra Patológica

Quis a força torturante de uma dor de dentes que eu fizesse aquilo que já devia ter feito há muito, ou seja, visitar o dentista. O mais paradoxal é que gosto de dentistas. É-se atendido em consultórios de cores suaves, muito limpos, num Português doce. Depois, que bom que é, ao fim de um dia de trabalho, reclinarmo-nos numa cadeira e sermos brocados, a cem à hora, debaixo do manto diáfano da anestesia !
Tudo isto, ao som de boa música ( Não, o som da broca não me impressiona ! ).

O meu amor pelos consultórios liga-se também às publicações empilhadas na sala de espera. Às vezes, são muito antigas, mas, como não as compro habitualmente, para mim, são sempre novidade. Naquele dia, as minhas mãos escolheram uma revista recente, a Grazia.
Papel couché, muita cor, muita imagem ... Nada de novo, enfim. Na capa, vi que eram prometidos aos leitores, um artigo sobre homens bonitos ( o inglês Jude Law, ao lado do português Ricardo Pereira ), uma série de sessenta pares de sandálias, qualquer coisa sobre 'as mais belas mulheres' e o seu excelente estado de conservação e dois quimonos à escolha, na compra da revista. A toda a altura, fotografada do lado direito ( provavelmente, o mais favorável ), a nova namorada de Vítor Baía. Garantia a moça que 'não há nada no meu (dela) corpo de que não goste'. De papo cheio com mais esta informação, ergulhei, então, na leitura.

Anúncios, cremes, maquilhagens ... Tropeço na página em que é mostrada uma fotografia de Pimpinha Jardim ( cabelo loiro, mini-saia, sorriso p´rá câmara ... ). E diz a legenda que (citamos) Pimpinha está mais magra ( fim de citação). Meditei, por um pouco, no propósito e no interesse da novidade. Concluí que aquilo não era para os leitores, mas, para a própria Pimpinha e seu meio envolvente.

Um dia, naveguei nestas águas. O chamado jet set. Bem, na verdade, aqueles que eu conheci não eram bem jet set. Por exemplo, entre pais e filhos e entre irmãos predominava o tratamento por tu e não o característico você. Quando cumprimentavam, faziam-no com dois beijos na face, em vez de um. Eram assim um jet set tipo 'loja dos trezentos' ...

Também ali, havia a obsessão pela elegância. E quem diz elegância, diz magreza. As mulheres do meio ( igualmente designadas por senhoras ) eram cuidadosamente examinadas à chegada pelas outras, como que à procura dos horrendos quilos/pneus. Pneu ou quilo que fosse encontrado instalado na barriga, peito ou cintura era logo abatido com dietas milagrosas, passadas de senhora em senhora como segredos de estado. Havia a dieta da banana ( só bananas, durante dois dias, sem ingerir água ), a dieta da maçã ( sem ingerir água, comer maçãs, durante dois dias ), a dieta da sopa ( a mesma coisa, comendo só sopa de legumes). Dois dias passados e os quilos eram passado também !

Curiosa era a maneira como se consideravam as mulheres, fossem elas senhoras ou não. Catalogadas como se fossem livros ou filmes, as mulheres eram:

a. muito bonitas
b. bonitas
c. não-bonitas, mas extremamente interessantes ( atenção ao advérbio !)
d. interessantes

Se se vestissem mal ( mesmo que tivessem um rosto e um corpo agradáveis ) eram:

e. pirosas

As desfavorecidas pela Natureza, demasiado feias para caberem em qualquer destas categorias, eram:

f. horrorosas !

Em alguns raros casos, havia um bónus, que era o 'com classe'. Fulana era 'muito bonita, com classe' ou 'não-bonita, mas extremamente interessante (atenção ao advérbio) 'com classe'. Esta distinção, claro, não se aplicava às duas últimas categorias. Nunca conheci pirosas 'com classe'ou horrorosas 'com classe'.

Eu comecei por ser 'horrorosa'. Aliás, o riot act foi-me lido, logo à entrada:

'Não sabes andar, não sabes falar, não sabes estar, não tens aplomb, não tens cachet'. Fiquei alarmada. Eu não sabia andar ?! Mas, a minha mãe sempre me dissera que, assim que comecei a dar os primeiros passos, nunca mais quis ser transportada ao colo, e agora diziam-me que eu não sabia andar ?! Eu não sabia falar ?! Mas, a mesma mãe diz-me regularmente, ' que eu fui logo muito explicada', e agora, eu não sabia falar ?! E o que era isso de 'não saber estar' ? E como poderia eu ter cachet, se não era artista da rádio ? E aplomb, o que seria ? Estaria à venda nas lojas ?
!

Outro aspecto a ter em conta era a linguagem. Permitia-se o palavrão, mas não o palavreado 'da gente rota' ou, como se dizia no meio, da gentinha. Por exemplo, uma pessoa que batesse com o dedo do pé na esquina de um móvel, podia soltar um sonoro 'pooooorrrrra'! Contudo, numa reunião social, causaria estranheza se dissesse que a obra de determinado autor era 'tremendamente interessante'. Conclusão, o advérbio era aceitável, dependendo da boca de quem o soltasse. Há, também, que referir, as palavras banidas, proibidas. Era o caso de 'pá' , como em 'ó pá, dás-me um cigarro ?' . O acto de pedir cigarros a alguém era mais tolerado que permitido. Dizer 'ó pá', é que já suscitava dúvidas. 'Pá' era ordinário, revolucionário, vinte-e-cinco-d'abrilário. Trazia à memória daquelas senhoras e senhores tempos que a memória deles queria esquecer.

O tempo deste texto está no passado porque tenho a impressão de que tudo aconteceu há muito, muito antes da própria distância cronológica. De facto, durante todo o tempo em que por lá estive, comecei, como escrevi, por ser 'horrorosa'. Depois, à custa de muitos cuidados com a alimentação, de conselhos para conjugar bem as roupas e de muita (im)paciência, lá ascendi ao posto de 'não-bonita, mas extremamente interessante ( com direito a advérbio e tudo !). Hoje, regressada ao conforto da roupa barata e sem beleza, perdi em interesse o que (re)ganhei em horror. Paciência !

Tudo isto veio a propósito de Pimpinha Jardim e da sua magreza, anunciada numa revista, como se fosse um troféu. Ultimamente, temos visto bastante de Pimpinha. Pimpinha com namorado, Pimpinha sem namorado, Pimpinha desfilando, na passerelle, de mamoca ao léu, Pimpinha, seminúa, fotografada ao lado da mãe, semidespida ... Nunca suspeitámos que Pimpinha tivesse problemas de gordura. Na verdade, sempre nos pareceu muito bem.

Notícias destas, porém, contribuem para o nosso bem-estar. Enquanto as lemos, não há défice, nem subida do preço do petróleo, nem crimes bárbaros na imprensa, nem o Primeiro Ministro a prometer castigos bárbaros para quem não cumprir ... Ficamos mais fortes e com mais vontade de viver. Aqui vai, mesmo, um selogane para os moços que vão bravamente, disputar o Mundial da Alemanha: 'Pimpinha magra, é o nosso Viagra'. E o Mundial está ganho ! ( ou, como diz a gentinha, está no papo ! )

2 Comments:

Blogger erü said...

Excelente regresso, Maria Helena :)

7:37 da tarde  
Blogger Maria Helena said...

It's very nice of you ! feeling better, now ?

4:44 da tarde  

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