terça-feira, junho 20, 2006

Scolarização

O campeonato do mundo já começou (caso alguém não tenha reparado!) e a nossa selecção já garantiu a qualificação para a segunda fase. Espera-nos a Argentina (na minha opinião a maior candidata ao título neste momento) e a Holanda (que não pode connosco desde o Euro 2004). Portugal conseguiu três vitórias em outros tantos jogos, cinco golos marcados e um sofrido. Há quarenta e dois anos que não ganhava dois jogos numa fase final de um mundial e nunca da história do futebol português um guarda-redes passou dois jogos sem sofrer golos.

Tudo isto para que alguém me explique porque é que Scolari ainda é criticado como se fosse a pior pessoa do mundo. Antes do mundial foi criticado porque não chamou Quaresma, Tonel, Baía entre outros. Caiu o Carmo e a Trindade pelas opções do homem. Mas vendo bem as coisas, não se concordando com 3 ou 4 jogadores e sendo o grupo composto por 23, não se concorda com pouco mais de 10 %.10%, aliás, que certamente nunca, ou muito dificilmente seriam titulares. Assim sendo, porquê tanta crítica?

Começa o estágio critica-se o local de estágio (única crítica que partilhei apenas pelas elevadas temperaturas que se registaram e que não favoreciam a recuperação de jogadores com quase 50 jogos nas pernas). Critica-se a abertura dos treinos a milhares de pessoas, quer no Alentejo, quer já na Alemanha.

Criticou-se a chamada do Figo e do Costinha. Mas vendo bem as coisas, só estes dois jogadores conseguem transmitir uma confiança e uma experiência que de outra maneira não existia nesta equipa, e isso reflecte-se dentro de campo.

Critica-se porque só se ganhou 1-0 a Angola quando devíamos ter ganho por 4 ou 5. Mas Angola empatou com o México (que está acima de Portugal no ranking da FIFA) e para estar numa fase final tem que ter algum valor. A culpa de não se ter marcado mais golos? Scolari, pois, claro!

Portugal venceu o Irão, desta vez por 2-0, jogou bem, mas o mérito desta vez não é de Scolari, mas do grupo de jogadores de classe mundial que temos (os mesmos que só ganharam por 1-0 a Angola). Portugal fez o melhor jogo dos oito últimos, mas o mérito nunca é do brasileiro. Aliás, um conhecido apresentador de televisão (que até já tem curso de treinador) afirmou até que o sucesso do Euro 2004 só foi possível graças ao trabalho de Mourinho no FCP, que forneceu a coluna de meio campo que ainda hoje funciona na selecção. Mas na última época apenas Maniche trabalhou com Mourinho e durante apenas durante meia época. Assim, Scolari tem que ter algum mérito, ou estou enganado?

Pinto da Costa veio para a frente das câmaras afirmar que Portugal só tinha que ganhar a Angola e Irão, adversários mais fracos que os nossos bravos lusitanos. Onde é que andava ele quando Portugal fez a figura que fez há quatro anos no mundial da Coreia /Japão? Aliás, onde é que andavam todos estes críticos?

Scolari conseguiu algo inédito a nível da selecção. Veio como campeão do mundo (e nem todos são campeões com o Brasil-participaram em 17 edições e 'só' ganharam 5), sagrou-se vice-campeão europeu, tornou Portugal numa selecção temida por qualquer equipa mundial (Argentina e Holanda queriam evitar Portugal já nos oitavos de final) e criou uma blindagem em volta da selecção que permite que, pela primeira vez na história, esta seja o clube de todos os portugueses que a apoiam em qualquer lado. E, acima de tudo, é um verdadeiro líder que todos ouvem e respeitam.

Nos anos anteriores, e com seleccionadores portugueses, Portugal falhou os mundiais de 90, 94 e 98, fez triste figura em 2002; falhou ainda o Euro 92, caiu nos quartos-de-final no Euro 96, nas meias em 2000.

Com Scolari, chegou-se à final de uma grande competição pela primeira vez e este ano já se fez história. Por tudo isto, ainda não consigo compreender tanta crítica.

Carlos Barrocas

P.P.: Acho sinceramente que podemos chegar longe neste mundial. Pelos menos às meias-finais, onde podemos encontrar o Brasil. Aí...quem sabe. Apesar de tudo, mesmo com uma passagem aos oitavos-de-final, Scolari deve continuar nos comandos da selecção, pelo menos até ao Euro 2008, onde, em caso de sucesso no mundial, seremos um dos maiores candidatos ao título.