terça-feira, agosto 15, 2006

Deste Lado do Espelho

Gralha: não é 'ferrugeno', é 'ferrugento', ai !

Bom, a ideia deste título para um blogue ( 'o ferrugento cão asmático das praias'), veio-me da leitura de um dos meus autores preferidos, Alexandre O'Neil. Geralmente, não aprecio poesia. Porém, acho especial graça aos trabalhos deste poeta. E esta imagem de um cão asmático e, ainda por cima, ferrugento, parece-se com o retrato que o país tem na imprensa. A ideia que tenho, hoje, da minha pátria é a de um organismo que funciona ferrugentamente e que tosse, como um velho asmático. Valha-nos 'o sal, o sol, o sul' ...

O poema em que se insere aquela linha chama-se 'Portugal', o qual, por sua vez pertence ao livro 'Feira Cabisbaixa'. Aqui vo-lo deixo, transcrito com a devida vénia:

Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa de uns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato !
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há 'papo-de-anjo' que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós ...

Cheers !