quarta-feira, setembro 06, 2006

Deste lado do espelho

Continuação do texto anterior ( escrito, por acaso, a seguir ao almoço de dois dias depois )

O líquido corria, lenta, lentamente. Impossível dormir.

'Não tires os dentes ! P'ra quéque estás a tirar os dentes ?'
'O nosso Zé ?' 'Está lá fora'.

'Então, sente-se melhorzinha ?' 'Sim, sra. enfermeira',

'Este hospital é muito bom, tratam-nos muito bem aqui. Onde é que está o nosso Zé ?' 'Está lá fora. Põe lá os dentes.'

Perto das 17.00, veio outra garrafa de soro. Ía ser-me colocada até ao fim. Perto de um litro ! Uma hora, escoara-se o equivalente a um dedo.

'Sra. dra. estou melhor. Preciso do frasco todo ?' Não seria preciso, concluiu. 'Venha cá, que eu vou receitar-lhe uns medicamentos'. Já convenientemente receitada, saí, quando as auxiliares começavam a limpar o chão.

Naquela tarde, o Centro tivera que tratar de mim, de uma velhota (mais os seus Zés e os seus dentes), de um bébé rechonchudo, de um rapaz neurótico e de mais quatro ou cinco pessoas. Possivelmente, até fora aquela uma tarde calma. É provavel que todos tenhamos saído melhor do que entrámos.

Na parede do consultório, uma citação do Ministro da Saúde dizia que 'ele', ministro,' não iria a Centros de Saúde. São demasiado maus.' Tem a certeza, sr. Ministro ?

Vivemos sob um Governo que gosta muito de produzir citações.