domingo, dezembro 03, 2006

Ai, os titulars, os titulares ...OU 'Foge cão que te fazem titular ..'

Bom, parece que o Ministério sempre dispensa a designação. Mesmo assim, não resisto a comentar esta coisa de quererem fazer dos professores uma coisa que eu pensava pertencer só à nobreza. Enfim, como diz o outro ( qual outro ? ), depois da tempestade vem a bonança e a galinha da vizinha é melhor que a minha, que é como quem diz que no melhor pano cai a nódoa e assim por diante ... Primeiro, nós cá profes. foramos uns malandros que andavamos à boa vida. Agora, toma lá um título e cala-te. Mas, antes que o 'panhes, vais ter que suar. Enfim.

A possibilidade de entrar para a nobreza da classe, o chamado 'créme de la créme'não deixa de me causar um certo nervoso miudinho. Titular, eu , que 'só sei que nada sei' e cada vez sei menos, como diz o outro ( mas, qual outro, gaita ? )? Ainda não me dei ao trabalho de ler a versão definitiva do novo estatuto, pois tenho andado ocupada com:

a. a feitura de documentos para inquirir as colegas de grupo acerca de como estão a decorrer as aulas de substituição;
b. um inquérito sobre as TIC;
c. a feitura do regimento interno do Departamento;
d. reuniões várias
e. preparação de aulas / testes
f. etc., sendo que nesta alínea cabe um sem número de contactos com os E.de Educação, queixas destes sobre os colegas dos filhos, queixas dos professores sobre a má qualidade dos alunos. Enfim. ( 'tra vez ?! Este bem pode fazer companhia ao outro ... )

E é por tudo isto que ainda não li o novo estatuto. Porém, já sei que ele há profes. e acima de profes. que é como quem diz que para aceder ao topo temos que ser submetidos a umas provas, de ter as faltas em dia e de ter um bom relacionamento com os alunos, em particular, e com o mundo de um modo geral. O que me mete nervos não é isto, porque se é só isto, pfff, é trigo limpo, já cá canta e etc.. Mas, quanto ao título, como diz o outro (...da-se! ) qué quê fiz p'ra merecer isto ?

Eu vou já contar porque é que me encanita o título de 'titular'. Ora então ...

Há vinte e três anos, tive a ideia de me casar com o homem (pensava eu) da minha vida. Chegada a fase de ser apresentada à família dele, a tia Judite ( uma das tias solteiras ) levou-me a casa da tia Nininha ( uma das tias viúvas ), na altura jacente no seu leito de morte. Judite e Nininha, octogenárias, tinham sido pioneiras em Portugal, nos estudos superiores. A primeira fora das primeiras notárias, a segunda das primeiras ginecologistas. Judite exibia uns oitenta anos cheios de vida, Nininha finava-se, olhando com olhos já velados para os cantos do quarto onde se lhe figurava ver as faces dos parentes que a tinham precedido na partida.

Ambas pertenciam a uma família de algum nome, ligada à Marinha. Talvez fosse essa a razão pela qual era frequente entre eles ( e para os elementos de fora ) o uso de linguagem de marinheiro. Utilizavam o palavrão com uma vulgaridade que me espantava a mim, que como membro da pequena burguesia, evitava o palavreado dito, do povo. Na verdade, eu já ouvira dizer que os extremos se tocam e que uns desses extremos era mesmo o uso de termos chineleiros, os quais, na boca daquelas damas e cavalheiros tinham a categoria de 'imagem de marca'. Nas frequentes discussões entre os irmãos, a frase 'Vai à merda' era desferida com a rapidez letal de uma bala. Tal como nas discussões entre varinas ...

Tem isto a ver com o que se contava da tia Nininha, a ginecologista. Dizia-se que, quando atendia as doentes, lhes ordenava: 'Vá, salte ali para a marquesa para eu lhe ver a duquesa !'

Depois de ouvir esta história, nunca mais consegui dissociar dela a palavra 'titular'.

Se algum dia eu aceder ao topo ( e que terra prometida se verá de lá ? ), que serei eu ? Uma marquesa onde alguns se deitam ou uma duquesa aberta ?

E é por isto que a ideia de me fazerem titular me enerva. É também por isto que confesso o meu medo de ler o novo estatuto da carreira docente. Quem tem medo não come uvas, lá diz o outro ( MAS QUE OUTRO ?! )