sábado, janeiro 08, 2005

A ver se a gente se entende:

Maremoto e tsunami não são sinónimos. Sim, sei que o tema está mais do que batido na blogosfera lusa. Mas olho para a primeira página do Público de ontem (estou atrasado, bem o sei) e volto a ver o mesmo erro repetido: "(...) para acudir às nações do Índico atingidas pelo sismo e pelo maremoto (...)". Ok, não se fala aqui em tsunami. Mas, ou muito me engano, ou o jornalista usou a palavra sismo para se referir ao maremoto e esta referindo-se à onda gigante?
Não sou geólogo nem nada que o valha. A última cadeira que tive da área das ciências naturais foi Ciências da Natureza, no meu longínquo oitavo ano. Mas posso tentar explicar isto com o meu senso comum:
Maremoto é um sismo que ocorre no fundo do oceano. Os motivos que estão na sua origem são os mesmos dos sismos. Uma boa parte dos tremores de terra que sentimos em Portugal são, tecnicamente, maremotos - uma vez que ocorrem no fundo do Atlântico. Podem ou não causar ondas gigantes capazes de atravessar oceanos inteiros.
Tsunami é a palavra japonesa adoptada por todo o mundo que designa essas ondas que os maremotos podem causar. O seu tamanho e intensidade variam com a magnitude do sismo, da mesma forma que a água de um alguidar se agita mais ou menos conforme o tamanho da pedra que se lá se deixar cair. No mar, o tsunami assume a forma de uma onda longa e não muito alta, que se desloca rapidamente. Quando se aproxima de terra, perde velocidade sem no entanto perder força, e ganha a altura que lhe dá forma. Na praia, nota-se a maré a descer a um ritmo fora do vulgar, por vezes até distâncias que nem a maré mais baixa deixa à superfície. A rebentação da onda é idêntica à de outra onda qualquer - mas com uma força incomparavelmente maior, capaz de provocar uma devastação como aquela que todos já vimos.
O assunto não se esgota aqui: um tsunami não tem necessariamente de se manifestar numa onda gigante. Não raras vezes, assume a forma de uma subida de maré incrivelmente rápida, que inunda as áreas costeiras. Menos violento, mas ainda com efeitos devastadores.
É isto que os jornalistas portugueses parecem não saber nem querer saber. Qualquer manual de Ciências da Natureza do sétimo ano de escolaridade diz isto que acabei de dizer - uma investigação de cinco minutos, uma pequena leitura na diagonal, e muitos disparates na comunicação social tinham sido evitados. Já que não se pode evitar um tsunami, ao menos que se faça uma cobertura minimamente rigorosa quando ele acontece.
João Campos

1 Comments:

Blogger azurara said...

Meu caro amigo,
Deixe que lhe confidencie que gosto bem mais deste (seu) lado do espelho.
Gostei, especialmente, da objectividade que colocou no tratamento da diferença maremoto/tsunami. Gosto da objectividade. Abomino o "senso comum" e o "palpite".
Opinião, é outra coisa. Opinião, cada um pode ter a sua. O que não pode é utilizá-la para fundamentar outra opinião.

Mas escreva. Vá em frente!
Já agora:
Ser jornalista não implica emudecer quanto a opinar. O problema é que, hoje, há muitos jornalistas que informam, opinando. Isso é crime!!
Abraços.

12:17 da manhã  

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