quinta-feira, dezembro 08, 2005

A Questão dos Exames e um pouco mais

Os exames nacionais são, na verdade, um bode expiatório recorrente. Neste tema, a minha posição é semelhante à de Churchill quanto à democracia: os exames são a pior forma de avaliação, à excepção de todas as outras. Nem sempre provam aquilo que os alunos sabem. O desempenho de um aluno num momento de avaliação desta natureza pode ser condicionado pelos mais diversos factores externos. Tudo isto é verdade. Nos termos do ensino em Portugal, eles são um anacronismo. Porque, como o Bruno afirma, não são divertidos. E a nossa filosofia é que a aprendizagem deve ser divertida.

Errado. A aprendizagem não deve ser divertida. Para isso, há o recreio, os intervalos. A aprendizagem deve, sim, ser estimulante. Deve incutir nos alunos o gosto por saber mais. A vontade de saber mais. Deve ser feita por estádios, por metas enquadradas no tempo, findo o qual há uma avaliação de conhecimentos. Devem ser apoiados os alunos com maior dificuldade e estimulados os mais brilhantes. Devem ser premiados os sucessos, por pequenos que sejam. Porque é estimulante recuperar uma negativa e ver esse esforço reconhecido. E, acima de tudo, deve ser reconhecido o mérito.

Onde anda tudo isto no ensino português? Não anda, evidentemente. Como já aqui escrevi, a culpa passa igualmente pelos pais, que não mais educam os filhos. A culpa passa igualmente pelo tremendo facilitismo que grassa no nosso sistema educativo (?). Se há uma elevada taxa de insucesso escolar, a medida mais fácil de implementar para contrariar a tendência é tornar os programas mais fáceis. Mas isso nada resolve. Isso não estuda a causa dos problemas. Isso não premeia o mérito, não apoia os alunos mais fracos nem castiga os "baldas". Isso não estimula - antes pelo contrário, cria uma geração de indivíduos que sabe pouco e não se interessa por saber mais. Uma geração que acredita que o mundo é fácil, porque há sempre alguém para por a mão amiga no ombro e dar uma ajudinha. Uma geração irresponsável, que olha com desdém e inveja para o mérito alheio.

Como se reverte isto? Com uma grande reviravolta. Há que perceber que é necessário um mínimo de exigência. Que há critérios que têm de ser seguidos e metas que têm de ser alcançadas. Há que tornar os programas apelativos, mas exigentes. Há que não facilitar, não levar ao colo. O secundário é fácil de mais. Porque o básico é, precisamente, básico de mais. Infelizmente, nesta geração já não há muito a fazer para além de tapar dois ou três buracos. O trabalho terá de começar nas bases - no primário. Aí deve começar a exigência (e para isso não é necessário ter uma régua de madeira para punir os alunos). O ensino do Inglês no primário é realmente uma boa ideia. Mas e que tal começarem primeiro pelo Português e pela Matemática? Talvez assim não houvesse alunos na universidade a dizer "hádem". Ou a não saberem resolver uma equação simples (guilty).

No entanto, há que conduzir o critério da exigência com cuidado. De modo algum devem as crianças e os jovens ser forçados a dedicar todo o seu tempo aos estudos. Não deve ser necessário "marrar". A vida social é um complemento tão importante quanto a vida escolar. Aqui, sim, tem lugar a diversão. Um bom equilibrio entre as duas instâncias seria, no meu entender, o ideal.

João Campos

6 Comments:

Blogger Shelyra said...

Concordo totalmente contigo. Pena è que não se vejam prospectivas das coisas melhorarem. Quanto ao facto dos alunos na universidade dizerem erros como "hádem", já não me espanta muito. Visto que há uma certa professora da escs que diz "númaro".

4:05 da tarde  
Anonymous Raistaparta said...

Cara/o Shelyra,se me permite:
.'é' e não 'è'
.'perspectivas' e não 'prospectivas'

9:22 da tarde  
Blogger LittleGirl said...

Joao, mais uma vez escrevo para dizer que concordo ctg!
Ainda hoje de manha, quando vinha para a faculdade, pensava em como o ensino em Portugal é feito de facilitismos e falta de estimulo.
Tenho um amigo que e professor de EVT e que diz que sempre que ha reunioes de avaliaçao onde os alunos estao entre o passar e o chumbar a soluçao é: "Se o passares a EVT ele passa..tb, a EVT, bem que o podes passar!!"

Ou seja, vamos passar a criança, mesmo que n esteja preparada e que isso se va repercutir num facilitismo instalado no proprio aluno que o fará fazer nada porque sabe que passará sem ter que se esfroçar..

E a nivel do superior??Tu sabes que so qaui percebi finalmente a maioria dos problemas internacionais que se passam actualmente??Mas percebi os pormenores, as causas, as consequencias..todos aqueles novelos por quem ninguem se interessa e que nao fazm parte do programa de estudo dos futuros jornalistas portugueses!!Sera possivel??

Pior..numa analise mais aprofundada percebi que o melhor dos nossos profs nao chega aos calcanhares do pior destes daqui!!!E eu que sempre disse tao bem da ESCS..:(

*

1:52 da tarde  
Blogger Shelyra said...

Resposta a Raistaparta: quanto ao "é" que eu escrevi "è", foi um simples erro de teclado. Quanto a "prospectivas"...pois, estou a ver que não conhece a palavra, mas foi isso mesmo que quis dizer. "prospectivas" é referente ao futuro. O melhor mesmo é procurar a palavra num dicionário.

2:37 da tarde  
Anonymous Raistaparta 2 said...

Para Shelyra:
Consta do diccionário (que consultei, sim, apenas para confirmar o mau argumento) o seguinte:
'prospectivo', adjectivo qualificativo, que significa 'aquele / aquilo que vê adiante ou ao longe';
'perspectiva', que é um substantivo, tem, para além de outros, os seguintes significados:'aparência, miragem. Esperança ou receio de uma coisa provável, mas ainda afastada'.
Só por curiosidade, o vocábulo, tal como é usado no seu texto, é um adjectivo ou um substantivo ? Se é adjectivo, tem que estar a qualificar qualquer coisa. Aqui está, e queira desculpar o tempo que lhe tomei.

8:44 da tarde  
Blogger Maria Helena said...

Oooops ! Em relação ao último comentário de Raistaparta, o próprio corrige: o argumento ´não é 'mau', mas sim 'meu'.

8:51 da tarde  

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