sábado, janeiro 14, 2006

'The unspeakable vice of the Greeks'

Ainda a propósito da recente legalização dos casamentos homossexuais na Grã-Bretanha ... Viram Sir Elton John todo feliz com o seu David Furnish ? O amor é lindo ... e, ( como diz Miguel Esteves Cardoso, num título que tenho em lista de espera ), f*****. Muita água correu, no Tamisa, até ser possível a estas duas almas apaixonadas mostrarem as alianças ao mundo !
Quis o destino, o subsídio de Natal, a Amazon, e, já agora, quis também eu, que viessem parar aos meus écrãs dois filmes sobre ser-se homossexual, na Grã-Bretanha do início do século XX. Um intitula-se 'Maurice', o outro 'Wilde'. Este último, é sobre Oscar Wilde. O primeiro é uma adaptação do romance com o mesmo nome, da autoria de E.M. Forster. Comecemos, então, por aqui.
A acção de 'Maurice' passa-se, no reinado de Eduardo VII, no período que antecede a Primeira Grande Guerra. Tudo muito 'upper-middle class', com um pé na 'gentry' (pequena nobreza rural) e outro na 'working class. A produção de Ivory/Merchant é meticulosa e dá um retrato muito convincente da época. Cenários de luxo, senhoras muito bem vestidas, very good-looking gentlemen, uma iluminação preciosa e até um mordomo de ar cínico, que 'sabe de tudo', mas que se mantém, convenientemente, calado. Coisa feita the British way, portanto.
Sendo este romance a história de um homem, 'Maurice' conta, ao fim e ao cabo, o percurso de quatro homens: Maurice, lui-même, Clive Durham, o visconde Risley e Alec Scudder. Os três primeiros são 'upper-middle class', o último é o guarda-caça da propriedade de Clive Durham, o esquire. Os quatro têm, em comum, a sua orientação homossexual.
Exceptuando a Grécia antiga (como é que será na moderna ?), a homossexualidade sempre foi olhada com incómodo ( e, deixemo-nos de coisas. Apesar da onda de legalizações que vai por esse mundo, ainda vai passar muito tempo, até que seja aceite 'como natural'). Na Inglaterra dos anos 10, era considerada mais do que um estigma social. Era uma vergonha, um crime ! Quem fosse apanhado fornicating another fellow, arriscava pena de prisão, com chicotadas ou trabalhos forçados. Foi o que aconteceu ao 'snob' visconde de Risley, surpreendido, pela Polícia uma noite, à saída de um bar, numa esquina, aos beijos a um soldado. Risley tinha sido colega de Maurice e de Clive, em Oxford. Sendo de uma classe social superior, é acusado, pelo juíz de subjugar e de se aproveitar da fraqueza de um 'seu inferior social'. O visconde tenta socorrer-se de Clive, que saira da universidade formado em Direito. Mas, Clive não se atreve a enfrentar a ignomínia de se ver associado a um companheiro caído em desgraça, e, é encolhido atrás do chapéu que vê o outro ser condenado a seis meses. Dos quatro, Clive Durham será o que não vai assumir a sua condição, preferindo o casamento, como fachada. A atitude cobarde ( ou prudente ? ou realista ? ) que toma, esmaga-o e deprime-o, porém. Durante o jantar, que lhe é oferecido em casa de Maurice, e enquanto as senhoras riem de copo erguido, o pobre recém-advogado desmaia. O amigo socorre-o e prepara-se para cuidar dele ( ajuda-o a deitar-se, põe-lhe a botija de água quente, despeja-lhe o bacio ... ). O médico, entretanto chamado, trata de apontar a Maurice a porta do quarto, perguntando-lhe com um olhar desconfiado, 'se não quer também desmamar o bébé' ( !!! )
Cumpre dizer, aqui, que Clive e Maurice se tinham apaixonado, em Oxford. Porém, enquanto o segundo ( ainda sem ter bem consciência do que lhe sucedia ) se quer dedicar, de alma e coração ... e corpo ao amigo, este recusa-lhe as carícias, preferindo que as coisas fiquem pelo campo do amor platónico. Após Oxford, Clive dedicará a Maurice uma amizade possessiva, convidando-o, constantemente, para a sua propriedade. Para Maurice, é um autêntico suplício de Tântalo, ter tão perto o seu amado e não poder tocar-lhe, acariciá-lo ... mas, lá vai passar grandes temporadas em Pendersleigh, onde o espera uma grande surpresa, chamada Alec Scudder.
Esta é uma personagem que tem o seu quê de canino. É um jovem que, na sua qualidade de guarda-caça, segue os senhores, quando estes vão caçar coelhos. É ele que apanha as peças e as leva no bornal. É, também, ele que ronda pela propriedade, enquanto os senhores dormem. É ele, por fim que, numa noite, vislumbra e se deslumbra com Maurice, debruçado da janela, a refrescar-se, debaixo do forte aguaceiro que caía, e com o qual tentava acalmar o desejo que o espicaçava. Muito subtilmente, Scudder vai insinuar-se na vida do hóspede de Pendersleigh, como a chuva que teima em infiltrar-se na fenda de um telhado.
Esta imagem é real, no contexto da história. Estão os senhores e as senhoras, num serão, a jogar às cartas, quando, de repente, começa a cair água de um buraco do tecto, pois lá fora estava pouring down with rain. Scudder é chamado, recebendo ordem para, de manhã, 'atacar o telhado' ... que fica do lado de fora do quarto de Maurice. O rapaz cumpre a ordem, deixando ficar, encostada à parede uma longa escada de madeira ... Na noite seguinte, depois de, mais uma vez buscar acalmia ao frio, Maurice deita-se, inquieto, deixando aberta a janela. E, de repente ...
... vê, perplexo, Alec Scudder passar o parapeito e dirigir-se a ele, dizendo 'I know, sir, I know, lie down, sir' e começar a beijá-lo, a penetrá-lo e a consolá-lo, como a chuva que cai numa terra ressequida. A cena é filmada com tão bom-gosto, que é difícil não aceitar a ternura que nasce entre ambos os rapazes. Normalmente, a imagem de dois homens, a trocar carícias, faria recuar o espectador mais enjoado. Aqui, porém, tudo é contado de um modo tão natural, que é como se Alec e Maurice fossem um do outro e um para o outro, até ao fim dos tempos, sem preceito, nem preconceito ! Deixa de se ver uma história de amor entre dois homens, passa a ver-se, somente, uma história de amor.
A relação que nasce, nessa noite, vai ser igual a qualquer outra. Há arrufos, amuos, mal-entendidos, pequeninas ciumeiras, olhares que se procuram e se desencontram, olhares que se encontram e só eles é que sabem porquê ... Maurice, mais agrilhoado pelas normas sociais, terá ainda dificuldade em assumir o assunto com Alec. Este, por sua vez, sendo um membro ineducated da working class, pouco tem a perder. Do dois, é o mais decidido, o que vai em frente, sem pruridos. Um dia, depois de duas noites, em que esperara, em vão pelo amigo, na casa do barco, resolve meter-se no combóio e ir confrontá-lo ao local de trabalho. Nem mais nem menos que a city de Londres, onde Maurice trabalha, como corretor da Bolsa. Alec, que mostra não ser para brincadeiras, sabe tocar as teclas certas, para 'chamar o amigo à pedra'. Acusa-o de o fazer de parvo e ameaça denunciá-lo. Para Scudder, não há cá leis, há somente o amor que sente pelo amigo. Quer ser tratado em público da mesma forma que foi tratado entre lençóis, e pronto ! Depois de resolverem a sua divergência, combinam dormir juntos, nessa noite. É que, daí a dois dias, Alec emigrará para a Argentina, viagem para a qual já tinha comprado a passagem algum tempo antes ... (continua)

5 Comments:

Blogger Pakalolo said...

Maria Helena, "O amor é fodido", do Esteves Cardoso, não vale a pena... Não avance demasiado nas revelações que eu quero ver se vejo o filme!;) qual dos dois, James Wilby ou Hugh Grant, faz de Maurice??

6:27 da tarde  
Blogger Maria Helena said...

James Wilby. O Hugh Grant só podia fazer de Clive :)
Terei que avançar só um pouquitinho, xim ? É que já tinha este texto feito há muito. O que eu disser não tira o interesse, I promise ... Veja e ... apaixone-se ! Vale a pena. Não o farei hoje devido ao adiantado da hora.
Então, segue-se que 'O amor é f*****', é um grande empata-f**** ? Ainda não li.

10:44 da tarde  
Blogger Pakalolo said...

Todos os livros são, Maria Helena!;) Pode arriscar, mas olhe que se dizem ali coisas muito feias!..

12:01 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Vindo do 'Estiêbes' Cardoso, não me admiro . Mas, veremos. Cheers !

1:33 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

(Um computador alheio atirou-me para o 'país das postas'. Então, aí vai a continuação).
Na hora de se despedirem, Maurice pede a Alec que fique com ele. Num assomo de idealismo apaixonado, diz-lhe que não precisam de dinheiro, nem das outras pessoas, que ambos são fortes, não são tolos e que tem de haver um sítio onde ambos possam viver. Mais realista, o namorado responde-lhe que 'não iria resultar. Seria a ruína de ambos'...
Dia de partida de Scudder para a Argentina. Maurice vai ao cais, para um último olhar. Pergunta pelo passageiro Scudder e indicam-lhe o sítio onde está a família, que viera para se despedir. O pai carrancudo, a gorda mãe, o irmão com ar de burguês própero, todos esperam Alec... que tarda em vir. Por fim, soa o apito da partida e o rapaz sem aparecer! A família Scudder sai, alvoroçada, para o cais. Quanto a Maurice, retoma o táxi em que chegara, e toma o rumo de Pendersleigh. Oh, rapture, oh joy ! Alec decidira ficar e estava à sua espera, na casa do barco!
Antes de ir ao encontro do seu amor, passa por casa de Clive. E conta-lhe que está apaixonado por Alec Scudder, que este sacrificou a sua carreira por ele e que, daí por diante, não haveria nem mais uma palavra entre ele, Maurice,
e Clive. Cumpre dizer, aqui, que entre o corretor e o guarda-caça não há só a relação de amor, que se fortifica. Há, também, um muro de preconceitos sociais que desaba. Scudder, o moço camponês, é o amigo fiel 'e para a vida' que Maurice procurara, em vão, entre os seus companheiros ricos e cultos de Oxford.
Enfim, uma história de amor que se preze, um filme, tem que acabar com um beijo apaixonado. Na casa do barco, Rupert Graves (Scudder) e James Wilby (Maurice)dão o beijo mais huuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu
uuuuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmmhuuuuuuuu
uuuuuuuuuuuuuummtranhado, da história do cinema, só comparável àquele entre Debora Kerr e Burt Lencaster, em 'Até à eternidade'
( sendo habitante da escola secundária de Odemira, território onde se beija bastante e com muita intensidade, podem crer que sei do que falo, lol)!
A história de E. M. Forster pára, mas não acaba aqui. Que acontecerá a Maurice e a Alec ?
Se fossem pessoas reais, diria que a relação acabaria pouco tempo depois, abafada pela enorme carga de contrariedades que estas pessoas enfrentavam, numa sociedade 'disinclined to accept human nature'. Em alternativa, a Guerra que deflagaria no ano a seguir àquele em que se passa a acção (para a qual ambos seriam, certamente, mobilizados) poderia pôr um fim trágico a todas as dúvidas, certezas e preconceitos. Se sobrevivessem, poderiam sempre escolher instalar-se na 'gay Paris' e gozar, em pleno, the roaring twenties.
Como, porém, são personagens de ficção, esqueçamos o cinismo, mascarado de realismo, com que sempre se encaram estas coisas. Em vez disso, vamos dizer que Alec e Maurice, algures, no imenso império britânico,encontraram um local remoto, no qual conseguiram viver o seu amor em paz. Casariam cem anos mais tarde, no mesmo dia em que Sir Elton John e David Furnish mostraram ao mundo as suas alianças. (Continua com 'It's a Wilde, Wilde world !')

3:39 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home