quinta-feira, outubro 06, 2005

Precisando (ou Enquanto eles praxam)


Ao longo desta semana, prestes a terminar, tem decorrido na Escola Superior de Comunicação Social a chamada Semana de Praxes. O facto de lá ter estado hoje a assistir ao ritual e a leitura que acabo de fazer de um artigo publicado no nº 1 do Oitava Colina leva-me a proceder a uma (simples, clara, óbvia) precisão (tão simples, clara e óbvia que chega a ser inútil).
Afirma-se, no referido artigo, que na ESCS “[...] há uma hierarquia mais ou menos clara entre os estudantes. O vértice superior da pirâmide é ocupado por quem frequenta a escola há mais tempo, a base pelos alunos do 1º ano, os caloiros” (p. 20). “Uma coisa que é preciso perceber é que há uma hierarquia” (p. 20), terá dito a douta-veterna (é assim que se escreve?) Cláudia Soeiro às jornalistas responsáveis pela peça. Ora, isto pode muito bem ser verdade em contexto de Praxes (às quais, felizmente, só adere quem quer). O que não pode é ser confundido com o estatuto oficial de estudante do chamado “caloiro”.
A verdade é que, dentro do universo do Ensino dito Superior, não há nada que distinga um aluno que tem duas ou mais matrículas de um aluno que se matricula pela primeira vez. Perante a Escola ou a Faculdade, perante os órgãos de gestão e órgãos científico-pedagógicos, perante os serviços e gabinetes, perante os professores, seguranças e funcionários responsáveis pelas salas e pelo material, a diferença entre um “caloiro” e um “douto-veterano” é nenhuma. Se os senhores douto-veteranos pagaram as propinas, parabéns – os caloiros também as terão pago, com certeza. O que faz deles alunos da escola exactamente na mesma medida que os alunos que se vestem de capa e batina (com direito a usar elevador e tudo). Em termos de direitos e de deveres institucionais, “caloiro” e “veterano” são exactamente iguais. Ou seja, têm o mesmo estatuto.
É por isso que não se pode falar numa “hierarquia entre os estudantes”, quando essa hierarquia não passa de uma ficção criada pela Comissão de Praxes (CP) para “apavorar” os novatos. Na verdade, nada os distingue. Não há cá vértice nem base de pirâmide nenhuma. Se lhes dá jeito falar em “hierarquia”, que tenham ao menos o cuidado de aplicá-la apenas à CP, em vez de estendê-la à escola inteira.

Susana


Nota: Não tenho nada contra a CP. Aliás, até acho que eles ficam muito sexys dentro do traje, e elas muito elegantes (o que se torna muito agradável à vista, sentido que deveras prezo). E até me consegui divertir razoavelmente à custa dos pequenos eventos que foram organizando ao longo do dia. Mais: até sei que não lhes estou a dar novidade nenhuma, que eles bem sabem que, fora do contexto de Praxes, nada os distingue dos chamados “caloiros” (o que, aliás, é bem demostrado ao longo do ano lectivo). O que se pede é um bocadinho mais de precisão nas cabeças e nas palavras. (“Tu e o raio da precisão”, dirão alguns. Tenho esta mania, que querem?).

8 Comments:

Anonymous João Campos said...

Nem sequer na dita "semana de praxes". Nenhum caloiro é, passe a redundância, obrigado a obedecer. Só alinha quem quer. Quem não quer, fica de fora, com a regra - lógica - de não poder praxar em anos futuros. Isto é precisar ainda mais um bocadinho, Susaninha.
Percebo o teu ponto e subscrevo-o. Pensa na "hierarquia" de outra forma. Um aluno novo, sobretudo se conviveu connosco (cp) nesta semana, vai sentir-se mais à vontade para falar connosco durante o decurso das aulas, se tiver alguma dificuldade na escs (excepto a economia; ai não há salvação). Então, terás os alunos (e não estudantes... sejamos precisos!) mais velhos, que por conhecerem o ensino superior de modo geral e a escs em particular, estarão mais aptos a ajudar. Mas a relação nunca é de obediência (claro que não estás a dizer que é - e possivelmente ela não o quis dizer nesse sentido tão restrito - mas hoje deu-me para escrever... lol).
Já agora, anda por lá uma nova edição da Oitava Colina?

10:08 da tarde  
Blogger Pakalolo said...

A questão da não-obediência é, aparentemente, pacífica. Como disse, às praxes só adere quem quer, tanto na ESCS como em qualquer outra escola ou faculdade (bendita seja a democracia). Quanto a isso não há nada a precisar. Trata-se de um direito adquirido, não de um conceito criado por um pequeno núcleo e estendido à escola inteira para criar uma ilusão de poder entre os recém-chegados, que pensam: “se até há uma hierarquia (de longa tradição, ao que parece) entre os estudantes, então é porque faz parte, isto de corresponder aos pedidos dos alunos mais velhos (que por acaso nunca pedem s.f.f., mas adiante). Se a CP até tem um traje próprio (aliás, caríssimo), se até tem diferentes estatutos, se até tem regras e tudo, se até tem um código, se até há um tribunal com sentenças e tudo é porque é um grupo com poder dentro da escola, só pode. Para ser assim!, todo organizadinho! Não é brincadeira, pá!”. E pensam: “Devemo-lhes respeito”. O que implica corresponder às ordens feitas pedidos a que só corresponde quem quer.
Precisando: a “hierarquia” não se aplica aos estudantes em geral. Ou melhor, aplica-se, mas não devia (eis a precisão). Porque, na verdade, não há diferenças (entre os alunos) que justifiquem a aplicação do termo. O estatuto (de poder) que a CP aparenta ter não é real. E o respeito que os novatos devem aos chamados “doutores” e “doutos-veteranos” (não me corrigiste, por isso parto do princípio que está bem escrito) é o mesmo que me devem a mim, ou a qualquer outra pessoa do mundo. Ou seja, um respeito que não deve permitir abusos (atenção: já não me refiro especificamente à ESCS).
Sim, sim, o novo número do Oitava Colina já está nas Bancas :D E confesso-me que me espanta a altura que a Colina atinge a cada edição: até já se vê Almada e Sintra lá de cima, imagina!
Susana

11:30 da tarde  
Anonymous João Campos said...

Evidentemente que te dou a razão. O respeito que um "caloiro" me deve a mim, enquanto membro da comissão de praxe, é o mesmo que te deve a ti. Que é o mesmo que eu devo aos doutos-veteranos que já lá andavam quando eu entrei. E vice-versa nisto tudo, claro. O respeito tem de ser mútuo - caso contrário será autoritarismo e submissão. Ou medo.

Se queres que te diga, no fundo a hierarquia é mais dentro da comissão de praxe do que na escola. Quanto à mais alargada, é por uma questão de princípio, com a qual creio que vais concordar. Uma vez que fomos nós, comissão de praxe, quem perdeu o(melhor: quem dispôs do) mês de setembro para preparar a recepção, e uma vez que é connosco, precisamente por isso, que os novatos travam o primeiro contacto quando lá chegam, é justo que alguém que não participou em coisa nenhuma não "passe por cima de nós". Aliás, perante a escola, nós somos responsáveis por qualquer abuso que haja, mesmo que ele não seja da nossa parte. E já sabes como é: se as coisas correm bem, ninguém nos dá os parabéns com uma palmadinha nas costas, mas se alguma coisa corre mal, todos os dedos acusadores apontam para nós. A hierarquia que se estabelece - e à qual cada um dos elementos da comissão obedece - é apenas para manter o controlo da situação. Muita gente pode não acreditar, mas nem nós mesmos fazemos o que nos dá na real gana. Lá está, voltamos ao respeito. E acredita: não é por um doutor ou douto-veterano pedir a um caloiro que traga um café sem dizer "se faz favor" que falta ao respeito.
Quanto à Oitava Colina, tenho de ler isso. Está bom, ou a decair?

12:00 da manhã  
Blogger Pakalolo said...

Concordo. A hierarquia faz todo o sentido, mas só em contexto de praxe, como eu disse e como tu acabaste de exemplificar. Sobre os caloiros, obviamente vocês têm "prioriadade". Mas em termos de estatuto, enquanto alunos da ESCS, não são nem mais nem menos que nós. Nem que os caloiros. Foi só isso que eu quis... enfim, precisar lol
Quanto à 8ª Colina, o que te posso dizer é pouco, ainda não li tudo. Olha, o artigo de capa desiludiu-me. Começa de forma bonita, mas depois perde-se em citações, bah, não me agrada. E o Edgar, ilustre autor da crónica de última página do último número (aquele texto horrível sobre a conta de restaurante, lembraste?), "brinda-nos" com mais um péssimo texto, desta vez sobre um diálogo entre um amigo seu e um polícia que, segundo ele, "tresandava a vinho". A verdade é que conseguiu mesmo uma coluna no jornal: "A colina torta", o espaço é dele. Enfim, é o nosso Alberto João Jardim: vai-se-lhe permitindo que continue a exercer as suas funções, mas na verdade ninguém presta atenção ao que ele diz.
O trabalho sobre os poetas bipolares está muito bom. De resto...
Susana

1:11 da manhã  
Anonymous Ovos Moles said...

Queria antes de mais dar os parabéns por terem trazido a temática das praxes para debate. Depois, queria deixar algumas reflexões pessoais sobre a praxe (baseado no que eu vejo em Aveiro e do que sei doutros locais):
- Primeiro: a maioria daqueles que se intitulam veteranos são uma cambada de imbecis que não tem outra maneira de tentar ser superior aos outros se não fôr através das praxes;
- Segundo: hierarquias??? Quando o traje foi inventado foi com o propósito de promover a igualdade entre estudantes; Se pudéssemos passar para fórmula seria algo assim: todos vestidos da mesma forma = igualdade.
Agora parece que a fórmula é outra:
quem veste de negro é "supostamente" superior aos outros; Hierarquias é na tropa e na gestão de empresas: aí é que são precisas.
- Terceiro; alguém acredita que só vai à praxe quem quer? Não me digam que nunca viram os "capas-negras" à espera dos caloiros como se fossem piranhas? Não há uma pressão psicológica que obriga o caloiro a participar na sua humilhação?
- Quarto; eu pergunto sempre a amigos meus que praxam (sim, porque há pessoas no meio disto que são responsáveis e inteligentes, embora pareça uma contradição) se não há outra forma de receber os caloiros. Podia-se trajar mas fazer a recepção de modo diferente.
- Quinto; não vêem que a imagem que passa dos estudantes fica ainda mais denegrida quando uma pessoa vulgar passa na rua e vê uma série de caloiros com a cabeça cheia de uma mistela de ovos, farinha e mais não sei o quê?
Vamos ver se mudamos o que está mal!

1:15 da tarde  
Anonymous João Campos said...

Em primeiro lugar, Ovos Moles: o artigo era, inicialmente, sobre as praxes da ESCS, e foi sobre elas em concreto que falei. Se conhecer alguém que tenha sido caloiro lá, pergunte-lhe. Pressão psicológica? Em Coimbra, decerto. Em Aveiro, talvez. Na escola que eu e a Susana frequentamos, quem não quer ser praxado declara-se anti-praxe. As únicas represálias são a proibição de praxar em anos futuros - evidentemente - e não conhecer os colegas (tanto caloiros como "veteranos") tão bem quanto os seus companheiros que alinharam nas praxes. Não há perseguição, olhar de lado, desprezo. Se na sua escola houve, temos pena. Apenas não generalize.

Concordo: o traje é algo supostamente comum aos estudantes. No entanto, o código do traje em qualquer universidade não permite que um caloiro o use - apenas após a segunda matrícula. Se isto é ou não hierarquia, não sei: deixo ao seu critério. Que o traje seja marca de hierarquia, aí estou de acordo consigo - não é. Para mim, o traje é símbolo de orgulho em pertencer ao ensino superior em geral e à ESCS em particular.
Poderá haver outras formas. Pessoalmente, e tendo em conta a minha experiência pessoal, acredito que na ESCS resulta. Tenho grandes amigos a estudar em Aveiro que partilham da mesma opinião (e em Beja, Évora, Porto, Faro...). Não defendo, no entanto, todos os tipos de praxe. Por isso os meus comentários dizem respeito apenas ao universo da ESCS.

Não acho que a praxe contribua para denegrir a imagem dos estudantes. Mais contribui ver dirigentes académicos a chegar a uma manifestação anti-propinas num Mercedes. No entanto, isso é apenas a minha opinião.

Pessoalmente, não tenho nada contra quem não gosta de praxes e se declara anti-praxes. Simplesmente não tenho nada a ver com isso - cada um sabe de si. No que me concerne, diverti-me imenso na minha semana de caloiro, e foi com orgulho e prazer que este ano dediquei o mês de setembro e este início de Outubro a organizar a recepção e as praxes. E hoje, quando foi o batismo do caloiro, não havia um único que não tivesse um sorriso nos lábios. Se calhar o amigo vai pensar que era um sorriso de alívio. Mas, se o era para alguns, acredite que para a grande maioria não era.

6:32 da tarde  
Anonymous João Campos said...

Mas olhe, Ovos Moles, se quiser saber mais, vá esta noite ao arraial do caloiro da ESCS e pergunte-lhes! É no campus de Benfica do Instituto Politécnico de Lisboa. E vai encontrar uma série de veteranos (sem traje, hoje) muito simpáticos, inteligentes e nada imbecis. E já agora, se vier, traga uns ovinhos moles, que a malta gosta e agradece!

6:36 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Boa noite caros colegas!

Fui caloira da ESCS no ano de 2001 e tenho a dizer que as praxes que "sofri" não foram nada de mais em comparação com o que vi em outras universidades e especialmente em Coimbra!

A unica coisa que me custou um bocadinho foi ter de andar com cordas e latas pela baixa de Lisboa, pois as cordas magoavam um pouco os tornozelos, e quando informei a alguns veteranos sobre esta situação, autorizaram-nos a retirar as cordas caso estivessem a magoar!

De resto, adorei tudo, e olhem que eu n sou a favor de praxes "pesadas" e nem de abuso e desrespeito pelo proximo!
e mais digo, hje estou a tirar um segundo curso no qual sou veterana e também praxo alunos ( tenho alguns caloiros, na U Aberta ja com 50 anos que alinharam e que se divertiram imenso).. e algumas ideias das nossas praxes até surgiram da minha vivencia e praxes na ESCS!!!!!!!

Por isso devo dizer, quem me dera que todas as praxes fossem com as da ESCS..

PS- Estou a falar de praxes com uns 7 anos, espero k a ESCS mantenha o mesmo espirito da minha altura e o mesmo respeito pelos "vermes rastejantes dos esgotos de portugal e arredores" ehehehe

Saudações

Sara L.

10:55 da tarde  

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