terça-feira, setembro 06, 2005

Small is beautiful

«Quando o mar for pó
também os deuses terão morrido
»
Susana Alves

Acordo com um telefonema do L., saiu da cama num salto. Diz-me que “o Guincho está a bombar metro e meio”, esfrego as mãos de contente. Ligo-me no beachcam.pt, procuro pelas condições do mar em Carcavelos. Contemplo as imagens captadas pela câmara, experimento o sabor amargo da desilusão: flat, sem condições para o surf.
Não é preciso recuar muito no tempo para nos lembrarmos da Praia de Carcavelos com ondas de (pelo menos) meio-metro em dias de metro e meio no Guincho. Hoje, o cenário é outro bem diferente: mar grande no Guincho*, flatada desesperante em Carcavelos, com muita barriguinha de emigrante retornado ao léu.
Tento perceber as razões, o L. arrisca uma explicação: a areia que foi acrescentada à praia, no âmbito do projecto de requalificação das praias da Linha do Estoril levado a cabo pela Câmara Munincipal de Cascais, foi absorvida pelo mar e alterou os fundos, afectando inevitavelmente a onda. Na altura, chegou mesmo a ponderar-se a construção de dois molhes, nos extremos Este e Oeste da praia, por forma a "roubar" areia ao mar, o que teria destruído por completo a onda. A praia está a encolher, é certo, mas a manutenção de uma onda deveria ser um dos primeiros factores a ter em conta quando se fala de requalificação de uma praia.
O surf em Portugal, apesar de não ter ainda a penetração social verificada noutros países, há muito deixou de ser uma coisa de miúdos. Há surfistas em praticamente todos os sectores e escalões da nossa sociedade e cada vez mais o surf desempenha uma função social no salvamento de pessoas, na ocupação de forma saudável e natural do tempo livre por parte dos jovens, na possibilidade de interacção não destrutiva com a natureza. Para além disso, a conjugação de factores naturais para a formação de um prime surf spot é de uma tal raridade que torna a sua destruição num acto quase criminoso. É por isso que áreas de surf devem ser consideradas zonas de protecção ambiental tão importantes quanto florestas, cascatas, rios, montanhas ou espécies vegetais ou animais. As ondas de qualidade devem ser preservadas e protegidas como qualquer um dos muitos tesouros que a natureza criou e que a acção inexorável do homem ameaça de extinção. Carcavelos foi, apesar de tudo, um caso de sucesso, já que, quando os surfistas foram capazes de demonstrar que o surf seria afectado, a Câmara alterou a obra para que as ondas se mantivessem. Mas Lugar de Baixo e Jardim do Mar foram já vítimas da inqualificável falta de visão dos governantes locais.
Custa a crer que se consiga conceber o desenvolvimento numa perspectiva de destruição do que a natureza levou milhões de anos a formar e o homem leva somente alguns meses a destruir. O que foi feito na Madeira é criminoso sob todos os pontos de vista: paisagístico, ambiental, turístico e desportivo. Se se preocupassem antes em rentabilizar as condições naturais já existentes, os benefícios a longo prazo para a economia, a sociedade e a estética das praias seriam muito maiores.
Já no início do séc. XX, os teóricos da Escola de Chicago, nos E.U.A, defendiam um desenvolvimento em pequena escala, sob o lema “Small is beautiful”. Conscientes das consequências catastróficas do rápido desenvolvimento económico e industrial europeu, advogavam para as suas comunidades um desenvolvimento controlado e equilibrado. Seria de certo desejável que os nossos governantes adoptassem esse lema, segundo o qual tudo deve ser feito com equilíbrio, ou, utilizando uma palavra mais actual, com sustentabilidade. Todos temos a lucrar com o equilíbrio. À expecção, talvez, daqueles que encontram na destruição da natureza a sua fonte de riqueza e o alimento para os seus pobres espíritos.
Susana

* - A onda é medida por trás.

2 Comments:

Anonymous João Campos said...

Ó Susaninha, mas nós já somos tão pequeninos... há é que pensar em grande! OTA! TGV! Arranha-céus em Lisboa, Porto, Beja e Freixo de Espada à Cinta! Encher o Atlântico de areia até os Açores serem montanhas e termos fronteira terrestre com Miami! Natureza? Bah, coisa sem utilidade, a National Geographic já filmou tudo, podemos ver quando quisermos. Surf? Caga nisso, daqui a pouco enfias um capacete virtual na cabeça e até tsunamis podes trepar! Progresso, Susaninha, progresso!

Portugal sucks, doesn't it?

3:03 da tarde  
Blogger Pakalolo said...

Pior foi o clown oficial da Madeira (entenda-se, Alberto João Jardim), que na altura tratou de enxovalhar publicamente os surfistas, dizendo que não os queria por lá ("O surf na Madeira acabou! Vão fazer surf para outro lado", foram as suas palavras ao diário de propaganda nacional, Jornal da Madeira) e que eles é que não percebiam nada de ondas ("devem julgar que as ondas partem de terra para o mar" foi o seu comentário). Ou somos todos crescidinhos e nos respeitamos uns aos outros, ou então...

10:09 da tarde  

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