quarta-feira, maio 31, 2006

Deste lado do espelho

A mulher do João

É para já, meu caro Johnny ! Estava a guardar-me para uma altura em que tivesse menos testes para corrigir, mas, seguindo a política de 'amor ao trabalho' que o meu querido Ministério quer implementar (ai que bem que eu falo eduquês !), evitarei deixar para amanhã o que até posso fazer hoje.

Todos nós somos avaliados ( apesar de poder ter sido afirmado pelo sr. de Lapalice, é das maiores verdades que eu já vi escarrapachadas num écrã ). Na minha ainda curta carreira ( chamo-lhe curta, porque a. há quem tenha carreiras muito mais longas; b. parece que foi ontem que dei, tremendo, a minha primeira aula ) os 'meus' encarregados de educação têm sido, geralmente, agradáveis. Os filhotes lá os convenceram de que cá a 'teacher' ( também conhecida por 'a sargenta', 'o sargento' ou 'a generala') até ensina umas coisas, apesar de, durante muito tempo, ter criado a fama paralela de ser forreta a dar notas. Nota positiva, para mim, portanto.

Ora, ía eu escrevendo que os encarregados de educação têm sido pessoas entre as quais me sinto bem. Normalmente, vem uma média de seis, à primeira reunião, mulheres, as mães. Sentam-se humildes, nas cadeiras e fazem por ouvir, com atenção ( 'assim fizessem os filhos', penso eu). O retrato que fazem dos meninos é entre o resignado e o defensivo. Se são meninas, 'ai, sra. professora, a minha filha é aplicada, gosta da escola, mas, sabe, está naquela idade ... isto são umas idades ...' Se são rapazes, 'ai sra. professora, já lá em cima, os professores diziam que ele é esperto e tem capacidades, mas ele só quer é jogar à bola ... o pai bem o avisa, mas que quer ?... isto são umas idades ...' A idade tem as costas largas.

Há, também, aquelas que demonstram preocupações sociais: 'sra. professora, o meu filho não é malcriado, pois não ? Se eu sei que ele é malcriado para algum professor ...' Aqui, não há a preocupação com os conhecimentos, mas com as boas maneiras. A propósito, já há muito que não ouço esta frase, da boca de um encarregado de educação. Ou os encarregados de educação já não são o que eram, ou as boas maneiras ca´ram em desuso...

Mais constrangedores são os pais/mães que, sem o menor rebuço, aconselham: 'Ó sra. professora, se ele se portar mal, castigue-o, dê-lhe uma palmada'. A minha resposta é sempre: 'EU ?! Livra !'

Estes EE (= fórmula científica dos Encarregados de Educação) são 'os amiguinhos', os que se põem do nosso lado, os que ralham com os meninos, mesmo na nossa frente.

Chega, agora, a vez dos outros, dos menos bons, dos que se consideram 'esclarecidos', daqueles para quem os professores 'não sabem tudo, para além de serem uns incompetentes'. Estes não são humildes ( seria um sinal de fraqueza), e têm pela escola e seus respectivos mestres um desprezo que já lhes vem do tempo em que eles próprios eram alunos. Defendem os filhos 'às cegas', reparam nos mínimos defeitos dos elementos da classe docente ( das raízes brancas no cabelo aos carros em segunda mão ). Eis um episódio que bem ilustra o que quero dizer:

'Era uma mulher nova e de ar distinto. Sempre que a via passar, pensava 'Meu Deus, é tão elegante, que mete a própria filha num chinelo !' Veio à reunião a seguir ao primeiro período. Sentou-se na beira da cadeira, segurando a ficha de informação, entre os dedos bem tratados. No fim, fez-me sinal, a dizer que queria falar-me, em particular. Brandindo o papel como se de uma arma se tratasse, interrogou-me, pressionou-me, torturou-me 'e como é que aquela professora dá uma nota destas, a minha filha teve positiva e uma negativa e ela dá-lhe esta nota, a miúda está de rastos e o João ( nome fictício ) ficou furioso !' Atordoada com a catilinária ( e sobretudo com a fúria do João, a quem eu desconhecia ) , lá consegui dizer que iria falar com a colega e verificar os critérios aprovados para a disciplina.

Daí a dias, dei-me ao trabalho de ir ter com a senhora ao emprego. Mostrei-lhe os critérios, e tanto para a avaliação escrita e tanto para a oral e tanto para o comportamento e a informação da colega segundo a qual a menina tinha todas as hipóteses de levantar a nota, bastava-lhe estudar, falar menos nas aulas, estar atenta, etc, etc. Pois, nunca me esquecerei da reacção da mulher: deu um olhar de relance ( um nanogésimo de segundo ) aos critérios e resumiu/destruiu tudo numa frase: 'EU NÃO ACREDITO EM NADA DISSO !' Ela não acreditava, ela achava que era tudo treta. Ela, que estudara e se dizia entendida na disciplina em causa, não leu, não quis saber. Saberia ela o que é avaliar ? Estaria apta a avaliar ? Senti-me idiota, virei costas e saí.

Eis aqui a preversão. Todos somos e sempre fomos avaliados, é verdade. Os EE nunca foram chamados a fazerem-no, formalmente. São-no agora ? Seja ! Só que, para evitar que mães como a fina senhora, referida nos parágrafos anteriores, aproveitem 'para cevar em nós os seus instintos de fera' , o Ministério ( que já se viu que tem uma apetência grande por agitações e provocações ) tem de fazer as coisas com muita sabedoria e ponderação, com parâmetros muito bem definidos, evitando subjectividades que podem ser perigosas. Lembremo-nos que está em causa a progressão dos professores na carreira.

Pessoalmente, não temo o julgamento dos humildes e semi-analfabetos. Acredito que os Encarregados de Educação estarão mais do nosso lado do que contra nós. Acredito que não são estúpidos e que o seu discernimento é muito maior do que à primeira vista se pode pensar. Acredito que a sua avaliação será: ' Eu sei o que tenho lá em casa. Agora, imaginem o que é um professor ter que aturar trinta como o meu '. Não poucas vezes ouvi esta frase, na minha, repito, curta carreira. A aleivosia do Ministério terá a sua justa recompensa .

O que me assusta é a mulher do João.

P.S. Claro que, um dia, Johnny, um qualquer Governo pedir-nos-à que avaliemos os Encarregados de Educação. Que nota darei à mulher do João ? Obviamente, chumbo-a !

Cheers !

E por que não avaliar os encarregados de educação?

A história de os pais avaliarem os professores é como aquela de o Parlamento Europeu querer taxar SMS e e-mails: tão ridícula que não faz rir apenas e só porque, na insanidade dos dias que correm, neste velho continente já tudo pode ser plausível.

A ideia em si é rebuscada porque parte de um princípio demasiado optimista: que os pais estão interessados na educação dos filhos, que querem saber quais são as suas dificuldades e que estão dispostos a ouvir os professores atentamente quando os alunos são problemáticos. No entanto, uma visita a uma reunião de encarregados de educação com o director de turma permite uma rápida constatação: os poucos pais que aparecem são, por norma, os pais dos bons alunos, dos quais os professores nada têm a apontar. Onde estão os restantes? Para que os pais pudessem avaliar de uma forma minimamente justa o professor, teriam de seguir atentamente o percurso escolar do aluno: desde trabalhos de casa a notas de testes e exames, trabalhos e, até, estudo. Quantos pais fazem isto?

E, de resto, não concordo que a um professor caiba a missão de educar. Pelo menos numa primeira instância - a educação das crianças começa em casa, no seio familiar, e lá deve continuar, em paralelo com o percurso escolar. Se um aluno do sétimo ano insulta ou agride um professor, não deve ser o professor a explicar-lhe que aquele comportamento é errado, mas sim os pais. Se os pais se demitem dessa função, porque tem ela de ser imposta aos professores?

E, já que de avaliação se trata, porque não podem os professores avaliar também os pais?

João Campos

(Maria Helena, já que é professora, quando dirá algumas lúcidas palavrinhas sobre o assunto?)

domingo, maio 28, 2006

Vencidos da vida

Nos anos mais próximos, tem-se verificado em Portugal uma consciência colectiva de um gritante pessimismo, que à força de tão repetido e reiterado quase que se vem tornando como característica nacional de sempre. Uma espécie de lugar-comum das conversas de elevador ou de tasca. Parece-me certo que o contributo que "Portugal hoje: o medo de existir", de José Gil, teve neste pensamento não é despiciendo. No seu livro há uma tentativa, não sei se consciente ou propositada, de exaltar aquilo que de mais obscuro e pessimista existe por cá. Talvez o surpreendente sucesso editorial da obra seja mais uma prova de que o sentimento pessimista se tornou frase-de-bolso para muitos de nós e, de facto, esteja assente numa grande parte das pessoas. É, no entanto, importante referir que não só como hoje, também no passado houve momentos em que o desânimo pessimista se abateu sobre o país. Particularmente nas passagens de século, nomeadamente com os chamados "Vencidos da Vida", do final de século XIX, que não são mais do que a prova de que o encarnar do pessimismo recolhe elementos profundamente cíclicos. Ontem, como hoje, estas visões tendem a ofuscar leituras mais abertas e, por isso, mais optimistas. Muitas dessas análises existencialistas incorrem no grave erro de aglutinar todas as categorias e variantes dos portugueses numa só. Transformando toda a nação numa espécie de mancha difusa com uma homogeneidade de característcas tão negativas quanto incuráveis. Muita da origem deste senso comum pessimista reside aqui mesmo.
Toda a gente o sabe, mas Portugal é um país onde a elite cultural é exígua e profundamente fechada sobre si própria (onde os teatros nacionais não enchem com obras de raríssima qualidade por via dessa visão de umbigo, por exemplo). Ora, em razão deste fechamento narcisista é infundado pensar que o sentimento das elites é, de facto, um pessimismo do país real e concreto.
Muito do nosso desânimo colectivo vem de termos, nos anos mais recentes, tomado consciência na pele de que muitos dos nossos desejos, a grande maioria deles desenhados com a estrada na União Europeia, não serem possíveis de ser tornados concretos numa só década. A resolução para este imediatismo pulante, em muito maximizado por uma comunicação social tão fechada quanto as próprias elites e levianamente sensível a quaisquer críticas que se lhe façam, é tomarmos real consciência de que o diagnóstico das dificuldades deve ser tão veemente como a descoberta das suas mais eficazes soluções.

João Teago Figueiredo

terça-feira, maio 23, 2006

O consumo de tabaco diminuiu desde que os preços quase chegaram aos três euros?

No geral, sim. Excepto uma marca: SG-Crava.

João Campos

Deste Lado do Espelho

Era uma vez uma gralha

O título do post anterior foi mesmo gralha e nada tem a ver com o conteúdo 'deatético' do mesmo.

Cheers

Deate lado do espelho!

Em aditamento ao último post vígula tenho a acrescentar o seguinte dois pontos parágrafo

A propósito das dietas referidas, solicita-se aos hipotéticos leitores/ ras que não sigam o (mau) exemplo das tias. Passar dois dias sem ingerir líquidos, só comendo peças soltas de fruta, permite perder aqueles quilos. Assim que se retoma o regime normal outros quilos voltarão. Este tipo de dietas ( rápidas e de efeito imediato ) está de acordo como o tipo de gente que o pratica, também ela habituada a viver para o imediato e depressa. Acrescento que, para além disto, vivem para si e para parecer bem. Nas festas, um homem gosta que a sua mulher suscite a inveja das outras mulheres e a cobiça dos outros homens. Aquela que o acompanha deve ser irreprochable de traje e maneiras. Tudo deve condizer com tudo, desde o porte elegante à lingerie de boa marca. Dos homens, nada há a dizer, pois estão sempre bem. Será por isso que, entre eles se encontra sempre gente de boa figura ? Homem calvo e pançudo e mulher gorda são relativamente, que digo eu ?, são mesmo raros no meio. Lembram animais de raça apurada.
Umas palavras sobre 'o não saber andar, falar, estar', etc.. A este respeito, aprendi o seguinte: mesmo que as pernas sejam uns 'caniços' e que o pneuzinho espreite, não se perde nada em 'saber andar'. E o que é isso ? É andar com um pé diante do outro, como os manequins. É assim como se viver fosse desfilar numa eterna passerelle.
Por 'saber falar', apercebi-me que significa dizer as palavras certas, no momento certo, com a entoação certa. Não se deve ser demasiado tímido, pois corre-se o risco de se ser considerado mosca morta. Ainda que a conversa seja aquilo que a gentinha chama de chacha, é de bom tom dizer alguma coisa ... nem que seja para não ficar calado. E quando não se entende bem, rir. Rir muito, para se dar a ideia de que se é 'bem disposto e com gosto pela vida'.
Já 'saber estar' não é tão difícil de explicar como parece. É como que um conjunto das duas qualidades anteriores. Sabe estar, quem sabe andar e falar. Sabe estar, quem sabe vestir. Finalmente, também sabe estar quem tem tanto, mas tanto dinheiro que se pode dar ao luxo de mandar tudo e todos à merda e viver e falar e trajar como muito bem lhe apetece. ( Consta do post anterior que o palavrão é permitido, remember ?)
Então, my dear ones, já sabem: comam-lhe e bebam-lhe, mas com moderação e sem dietas malucas !

Cheers !

sexta-feira, maio 19, 2006

Deste lado do espelho

A Magra Patológica

Quis a força torturante de uma dor de dentes que eu fizesse aquilo que já devia ter feito há muito, ou seja, visitar o dentista. O mais paradoxal é que gosto de dentistas. É-se atendido em consultórios de cores suaves, muito limpos, num Português doce. Depois, que bom que é, ao fim de um dia de trabalho, reclinarmo-nos numa cadeira e sermos brocados, a cem à hora, debaixo do manto diáfano da anestesia !
Tudo isto, ao som de boa música ( Não, o som da broca não me impressiona ! ).

O meu amor pelos consultórios liga-se também às publicações empilhadas na sala de espera. Às vezes, são muito antigas, mas, como não as compro habitualmente, para mim, são sempre novidade. Naquele dia, as minhas mãos escolheram uma revista recente, a Grazia.
Papel couché, muita cor, muita imagem ... Nada de novo, enfim. Na capa, vi que eram prometidos aos leitores, um artigo sobre homens bonitos ( o inglês Jude Law, ao lado do português Ricardo Pereira ), uma série de sessenta pares de sandálias, qualquer coisa sobre 'as mais belas mulheres' e o seu excelente estado de conservação e dois quimonos à escolha, na compra da revista. A toda a altura, fotografada do lado direito ( provavelmente, o mais favorável ), a nova namorada de Vítor Baía. Garantia a moça que 'não há nada no meu (dela) corpo de que não goste'. De papo cheio com mais esta informação, ergulhei, então, na leitura.

Anúncios, cremes, maquilhagens ... Tropeço na página em que é mostrada uma fotografia de Pimpinha Jardim ( cabelo loiro, mini-saia, sorriso p´rá câmara ... ). E diz a legenda que (citamos) Pimpinha está mais magra ( fim de citação). Meditei, por um pouco, no propósito e no interesse da novidade. Concluí que aquilo não era para os leitores, mas, para a própria Pimpinha e seu meio envolvente.

Um dia, naveguei nestas águas. O chamado jet set. Bem, na verdade, aqueles que eu conheci não eram bem jet set. Por exemplo, entre pais e filhos e entre irmãos predominava o tratamento por tu e não o característico você. Quando cumprimentavam, faziam-no com dois beijos na face, em vez de um. Eram assim um jet set tipo 'loja dos trezentos' ...

Também ali, havia a obsessão pela elegância. E quem diz elegância, diz magreza. As mulheres do meio ( igualmente designadas por senhoras ) eram cuidadosamente examinadas à chegada pelas outras, como que à procura dos horrendos quilos/pneus. Pneu ou quilo que fosse encontrado instalado na barriga, peito ou cintura era logo abatido com dietas milagrosas, passadas de senhora em senhora como segredos de estado. Havia a dieta da banana ( só bananas, durante dois dias, sem ingerir água ), a dieta da maçã ( sem ingerir água, comer maçãs, durante dois dias ), a dieta da sopa ( a mesma coisa, comendo só sopa de legumes). Dois dias passados e os quilos eram passado também !

Curiosa era a maneira como se consideravam as mulheres, fossem elas senhoras ou não. Catalogadas como se fossem livros ou filmes, as mulheres eram:

a. muito bonitas
b. bonitas
c. não-bonitas, mas extremamente interessantes ( atenção ao advérbio !)
d. interessantes

Se se vestissem mal ( mesmo que tivessem um rosto e um corpo agradáveis ) eram:

e. pirosas

As desfavorecidas pela Natureza, demasiado feias para caberem em qualquer destas categorias, eram:

f. horrorosas !

Em alguns raros casos, havia um bónus, que era o 'com classe'. Fulana era 'muito bonita, com classe' ou 'não-bonita, mas extremamente interessante (atenção ao advérbio) 'com classe'. Esta distinção, claro, não se aplicava às duas últimas categorias. Nunca conheci pirosas 'com classe'ou horrorosas 'com classe'.

Eu comecei por ser 'horrorosa'. Aliás, o riot act foi-me lido, logo à entrada:

'Não sabes andar, não sabes falar, não sabes estar, não tens aplomb, não tens cachet'. Fiquei alarmada. Eu não sabia andar ?! Mas, a minha mãe sempre me dissera que, assim que comecei a dar os primeiros passos, nunca mais quis ser transportada ao colo, e agora diziam-me que eu não sabia andar ?! Eu não sabia falar ?! Mas, a mesma mãe diz-me regularmente, ' que eu fui logo muito explicada', e agora, eu não sabia falar ?! E o que era isso de 'não saber estar' ? E como poderia eu ter cachet, se não era artista da rádio ? E aplomb, o que seria ? Estaria à venda nas lojas ?
!

Outro aspecto a ter em conta era a linguagem. Permitia-se o palavrão, mas não o palavreado 'da gente rota' ou, como se dizia no meio, da gentinha. Por exemplo, uma pessoa que batesse com o dedo do pé na esquina de um móvel, podia soltar um sonoro 'pooooorrrrra'! Contudo, numa reunião social, causaria estranheza se dissesse que a obra de determinado autor era 'tremendamente interessante'. Conclusão, o advérbio era aceitável, dependendo da boca de quem o soltasse. Há, também, que referir, as palavras banidas, proibidas. Era o caso de 'pá' , como em 'ó pá, dás-me um cigarro ?' . O acto de pedir cigarros a alguém era mais tolerado que permitido. Dizer 'ó pá', é que já suscitava dúvidas. 'Pá' era ordinário, revolucionário, vinte-e-cinco-d'abrilário. Trazia à memória daquelas senhoras e senhores tempos que a memória deles queria esquecer.

O tempo deste texto está no passado porque tenho a impressão de que tudo aconteceu há muito, muito antes da própria distância cronológica. De facto, durante todo o tempo em que por lá estive, comecei, como escrevi, por ser 'horrorosa'. Depois, à custa de muitos cuidados com a alimentação, de conselhos para conjugar bem as roupas e de muita (im)paciência, lá ascendi ao posto de 'não-bonita, mas extremamente interessante ( com direito a advérbio e tudo !). Hoje, regressada ao conforto da roupa barata e sem beleza, perdi em interesse o que (re)ganhei em horror. Paciência !

Tudo isto veio a propósito de Pimpinha Jardim e da sua magreza, anunciada numa revista, como se fosse um troféu. Ultimamente, temos visto bastante de Pimpinha. Pimpinha com namorado, Pimpinha sem namorado, Pimpinha desfilando, na passerelle, de mamoca ao léu, Pimpinha, seminúa, fotografada ao lado da mãe, semidespida ... Nunca suspeitámos que Pimpinha tivesse problemas de gordura. Na verdade, sempre nos pareceu muito bem.

Notícias destas, porém, contribuem para o nosso bem-estar. Enquanto as lemos, não há défice, nem subida do preço do petróleo, nem crimes bárbaros na imprensa, nem o Primeiro Ministro a prometer castigos bárbaros para quem não cumprir ... Ficamos mais fortes e com mais vontade de viver. Aqui vai, mesmo, um selogane para os moços que vão bravamente, disputar o Mundial da Alemanha: 'Pimpinha magra, é o nosso Viagra'. E o Mundial está ganho ! ( ou, como diz a gentinha, está no papo ! )

este post contém linguagem obscena eventualmente chocantes

mas é só o que apetece após estar mais de uma hora a apanhar frio, carregado de câmaras e tripés e mais o raio, em frente a um bar no Bairro Alto, à espera de uma "performance artística" do grupo de teatro da Universidade Nova.... que afinal consistiu em colar uma série de folhas A4 com nomes como Adorno, Bonga, Rage Against the Machine (etc. e já agora a caligrafia era uma merda) na porta e na parede do bar, enquanto os "artistas" (já agora, na minha terra, "artista" é sinónimo de "sacana", ou, em lisboeta, de "filho da puta") fumavam e bebiam em frente ao dito bar. Intitulavam-se "pós-modernos". Eis o que penso deles e mais dos "pós-modernos":

"F***-se, ca***** que os fo** a todos e mais a pu** da mãe deles, para a co** da tia a me*** do pós-modernismo!"

Obrigado.

João Campos

(eu bem queria saber que merda de "pós modernos" eles andam a snifar...)

sábado, maio 13, 2006

Pessimismo

Recentemente saiu mais um resultado que mostra que os portugueses estão ainda mais pessimistas em relação ao seu futuro do que estavam desde o último inquérito. Admito que não pareça, mas possuo conhecimentos sociológicos ultra-avançados, uma vez que frequentei um curso "lá fora", que me permitem retirar duas ideias a que posso chamar de, calculem, "conclusões":
Primeiro, é estranho que um povo esteja pessimista em relação ao seu país quando estamos numa fase da história da pátria onde já despedimos o Santana Lopes. Contudo, admito que o facto de Luís Delgado ainda emitir opiniões (chamo-lhe «opiniões» por falta de outro nome) também contribui para estes resultados.
Segundo, este pessimismo instalado colhe não só raízes histórico-culturais mas também tem alicerces contemporâneos uma vez que acabámos de eleger Cavaco Silva para chefe de Estado.
É caso para dizer: cada país tem o que merece.

João Teago Figueiredo

segunda-feira, maio 08, 2006

Abre aspas

"A única diferença entre o nascer e o morrer é um fato e um par de sapatos."
Belmiro de Azevedo.

João Teago Figueiredo

quarta-feira, maio 03, 2006

Dia da Liberdade de Expressão

A celebrar o Dia da Liberdade de Imprensa, decorreu na minha escola (ESCS; digo "escola" e não "universidade" porque, na verdade, trata-se do Politécnico) uma conferência, pela manhã, subordinada ao tema "Defesa Nacional e Liberdade de Imprensa" (ou qualquer coisa do género; não estou certo quanto ao título, mas a ideia é esta). Que contou, entre os seus convidados, com o Ministro da Defesa, com um professor lá da casa, e investigador na área de Media e Conflitos, com um general na reserva (cujo nome não me recordo, mas que gostei muito de ouvir), com a jornalista Maria João Ruella, com um outro senhor (perdi a sua intervenção por motivos de pequeno almoço) e com uma colega minha, estudante de Jornalismo no quarto ano.

E foi precisamente o dicurso desta colega que me causou ruído nos ouvidos. Falou da mediatização da guerra no Iraque, na manipulação de Bush e do governo americano aos media, e na falta de apoios da opinião pública, que, se entendi bem, não legitimaram a intervenção militar. Tanto sentimento anti-americano fizeram-me sorrir, sobretudo porque ele é indubitavelmente partilhado por inúmeros aspirantes a jornalistas presentes no debate. Pergunto-me a que "opinião pública" a colega se estaria a referir. Possivelmente Michael Moore ou Chomsky não foram ouvidos - e, já agora, que interessava? É curioso que ninguém fale em manipulação ou em "demonização" no caso de Michael Moore, esse senhor que ganha a vida a fazer documentários e programas de televisão sobre factos que se dá ao trabalho de hiper-hiperbolizar.

Mas adiante. Se os Estados Unidos estivessem à espera que a opinião pública (ou as Nações Unidas, ou a Europa) legitimassem a intervenção, teriam poupado a vida a uns milhares de soldados, é certo; mas o senhor Blix ainda andaria a percorrer o Iraque num jipe em busca das armas de destruição massiça (?), enquanto Saddam e a sua prole, tudo gente simpática, respeitadora dos Direitos Humanos e do Direito Internacional, bebericariam do melhor vinho francês no fausto dos seus palácios. Pergunto-me se a colega sentirá falta de Saddam Hussein, ou até se o povo iraquiano chorará a sua eventual morte.

Se houve manipulação na forma como os media no terreno mostraram as situação de guerra? Evidentemente. A colega falou no caso da estátua derrubada (em frente ao Hotel Palestina; mas onde estava a estátua, afinal?). Eu lembro-me do caso do perú no Thanks Giving Day, ou na estória da soldado Jessica. Manipulações desta natureza, apesar de eticamente questionáveis, acontecem sempre, nem que seja para moralizar as tropas. Ou será que o inenarrável Ministro da Informação iraquiano já foi esquecido? Se aquela personagem não foi uma forma de manipulação, ainda por cima descarada, então não sei o que poderá ser.

A colega esqueceu-se, no entanto, da manipulação dos media europeus. Onde quem foi demonizado foi Bush. Onde se destilou (e destila ainda) o maior ressabiamento anti-americano que já se viu desde o 11 de Setembro e os aplausos que o feito de Bin Laden suscitou. Esqueceu-se de que meio mundo se insurgiu contra os maus tratos aos prisioneiros de guerra, quando esse mesmo meio mundo fechou os olhos à barbárie do regime de Saddam, assim como fecha ao Irão, à Autoridade Palestiana, ao Darfur e a tantos outros palcos de tensão que a Europa ou esquece (Darfur) ou apoia os terroristas, vítimas dos mauzões Estados Unidos e do ilegal Israel (Autoridade Palestiniana, Irão). Compreendo; não está na moda demonizar a velha (em todos os sentidos) Europa, quando o inimigo é "esse Bush" e o maléfico capitalismo americano. É por estas e por outras que a Europa, a velha Europa, anda pelas ruas da amargura.

Pergunto-me se esta minha colega, assim como muitos dos demais que vêem os males do mundo nos americanos, prefeririam uma nação com um regime como o de Saddam aos Estados Unidos para exercer jornalismo. Provavelmente não. Porquê? Porque, ainda que os Estados Unidos sejam o Inferno na Terra, um antro de lobos manipuladores, por lá existe liberdade de expressão.

João Campos

terça-feira, maio 02, 2006

Deste Lado do Espelho

A questão, que Johnny tão pertinentemente põe, assaltou-me durante anos, por alguns primeiros de Maio. Dia do Trabalhador = trabalho ! E podemos, mesmo, extrapolar (Bah !, que palavrão !). Assim:

25 de Abril : Deve-se andar fardado, de camuflado e quico, na cabeça. Na mão, uma espingarda com um cravo no cano. Meio de transporte: um chaimite. Se for homem, pelo menos durante o mês anterior, deve deixar crescer o cabelo e a barba.

1 de Dezembro: Tudo independente ! Filhos, não mais a dependerem dos pais. Trabalhadores, não mais dependentes, mas independentes, pois então ( e viva o recibo verde !).

10 de Junho: Trajo obrigatório, uma gola de pregas e uma pála sobre o olho direito (?). Deverá cumprimentar os vizinhos, os colegas e os interlocutores telefónicos a recitar sonetos de Camões ou a sua estrofe favorita d' Os Lusíadas.

Feriados religiosos: O procedimento a adoptar é trajar como a divindade celebrada nesse dia. Por exemplo, a 13 de Junho, deve vestir-se de frade franciscano, rapar o alto da cabeça e andar pelas ruas da sua localidade com uma criança ao colo. Recomenda-se mais cuidado no caso de Santos que tenham atingido a sua aura seguindo a via do martírio. Por exemplo, no dia 24 de Agosto, dedicado a S. Bartolomeu, não consinta que o esfolem vivo. Para isso, já temos os sucessivos Governos.

Concluíndo: coerência precisa-se.
Cheers !

segunda-feira, maio 01, 2006

paradoxo

Se um feriado religioso é celebrado com religião (com uma eucaristia, procissão, o que seja), porque não é o dia do trabalhador festejado... a trabalhar? Em Portugal seria bom, assim para variar.

João Campos